MPB x Rock: a hipócrita e paradoxal “Marcha Contra a Guitarra” de 1967

Acho oportuno citar, inicialmente, uma síntese feita pelo historiador Fernando Novais  sobre o Livro de Ségio  Buarque de Holanda (pai do Chico) , “Raízes do Brasil” :

“Se o Brasil permanece Brasil, não se moderniza, se se moderniza , deixa de ser Brasil.”

O Brasil  é famoso , entre outras  coisas , por  ser o país dos paradoxos . Até hoje , por exemplo ,discute-se se a seleção de 1982 era melhor do que a que ganhou a Copa do Mundo  de 1994. Uns  argumentam que  o time de 82 era mais classudo , outros dizem que os campeões de 94 tiveram mais raça e alcançaram o glorioso resultado exatamente por isso.

Nasce aí  o dilema : é melhor jogar bonito e “perder de cabeça erguida” ou ganhar jogando “na raça”? Para muitos, isso é  algo  fácil de ser resolvido. Para outros, isso consiste em uma tortura sem fim.

Essa natureza paradoxal também reflete-se em nossa música. Artistas que se dizem “modernos” e cabeça aberta, são extremamente conservadores quando sentem-se ameaçados por algo novo. Voltarei algumas décadas no tempo para ilustrar tal comportamento.

O ano é 1967. Naquela época, a MPB era o que a juventude curtia, era o estilo musical do momento ( até surgir a denominação “ Jovem Guarda”) Expoentes da MPB, sentindo-se ameaçados por algo novo , ou seja, a introdução da guitarra na música brasileira , organizaram, apoiados pela  Rede Record, a “Marcha Contra  a  Guitarra”, realizada em 17 de julho de 1967.

Se analizarmos bem, o que estava em jogo  era o seguinte : jovens músicos acusando outros jovens de serem antipatriotas por introduzirem um instrumento “estrangeiro” em nossa  música. O medo era que a guitarra “americanizasse” demais a nossa música, tirando a originalidade que, até então, segundo seus  representantes, a MPB possuia. A guitarra, na época , foi rotulada  como “ símbolo do imperialismo Yanakee” por seus opositores.

Isso se deu porque o programa “Fino da Bossa”, apresentado por Jair Rodrigues e Elis Regina na TV Record estava rivalizando com o programa Jovem Guarda, apresentado por  Roberto Carlos , Wanderléia e  Erasmo Carlos, que , encantados  por artistas  gringos, como os Beatles e  Elvis Presley, utilizavam a guitarra  em suas músicas. A passeata tinha  como  mote a defesa das raízes da música  brasileira e  fazia parte  da  estratégia de marketing  que, supostamente, alavancaria o programa “Frente Única  da  MPB”, idealizado por Paulo Machado de Carvalho  no qual revezariam ,semanalmente, em sua apresentação ,Elis Regina, Wilson Simonal , Geraldo Vandré e Gilberto Gil.

A marcha foi realizada  em São Paulo e iniciou no Largo São Francisco e terminou no Teatro Paramount. Nara Leão e Caetano, visionariamente, não quiseram participar  da  passeata e presenciaram a passeata quando esta passou em frente ao Hotel Danúbio .

O interessnte  é que muitos dos  participantes da  presepada , mais tarde, incluiram a guitarra  em  sua sonoridade, como, por  exemplo , Gilberto Gil. Sabemos  que , nos  anos  80 , quando o Rock explodiu  na mídia mainstream  brasileira , a  MPB perdeu grande parte de seu espaço midiático , refletindo nas vendas  dos  LPs,virando , de certa  forma, “música que gente velha escuta.”

Penso que o ancacronismo da  MPB determinou a perda de  terreno deste estilo entre o público jovem. As pessoas  queriam, inicialmente,  algo novo , ensolarado como  o  som da  Blitz. Logicamente, o Rock  dos 80 também tinha  grandes poetas como Cazuza e  Renato  Russo, que tinham em  suas  músicas  a  urgência  e  a  energia que a juventude de seu tempo demandava.

Texto escrito por Oswaldo Marques

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