Fatos e considerações sobre a bela, imprevisível e necessária imperfeição musical

Música é uma arte e, como toda forma de expressão humana, passa pela atual transformação digital. As novas tecnologias estão acessiveis a todos e isto proporcionou o barateamento do processo de gravar música, fazendo com que um grande número de pessoas tenha a oportunidade de se expressar livremente através de suas  composições. Estilos musicais como o Trap usam o Melodyne, software de correção e afinação como se fosse um efeito sonoro qualquer.

Diana Omigie, neurocientista cognitiva da universidade britânica Goldsmiths, que conduz uma pesquisa sobre indução de emoção através da música, diz que o que pode ser considerado imperfeição (erros de tempo, por exemplo) são percebidos pelos ouvintes como algo mais expressivo. Pesquisas empíricas comprovam que a expressividade é o elemento de maior apelo estético na música. Quando gravamos voz, o melhor take que fazemos soa bem , mas não soa perfeito. Nós afinamos , quantizamos e eliminamos a respiração aperfeiçoando a voz gravada.Matematicamente , fica tudo simétrico e bonitinho, mas soa artificial.

De organismos unicelulares a ecossistemas complexos, tudo começou com um erro. E depois outro erro. E outro. Dessa proliferação caótica de erros, tudo emergiu, inclusive nós. Somos seres imperfeitos, cometemos erros o tempo todo, podemos ser desajeitados, sem rumo e indiferentes. Essa é a maravilhosa diversidade de “ser humano”. Da pura alegria à depressão, nossas inconsistências produzem obras de arte, capturando emoções complexas à medida que exploramos as profundezas da psique humana. Nossa apreciação da música está totalmente enredada em nossas imperfeições.

Quando limpamos e afinamos tudo com softwares de computador, eliminamos a complexidade harmônica e melódica da voz, tudo fica sem expressividade. As imperfeições contextualizam as gravações. Não há problema algum em escutar um album ao vivo e perceber que o guitarrista “mascou algumas notas” ou o vocalista não alcançou uma determinada nota aguda. Prefiro uma gravação orgânica com alguns erros, acho bem mais honesto escutar as “escorregadas” dos músicos do que perceber que tudo está perfeito  e artificial demais.

O álbum ao vivo Strangers in the Night da banda UFO é um exemplo de  álbum gravado sem overdubs (regravação dos instrumentos e da voz em estúdio). A sonoridade e a energia da banda são únicas.

Alguns artistas atuais estão gravando e deixando  os  “erros” aparecerem como recurso estético. O resultado é uma sonoridade orgânica.Mathew Herbert, compositor e produtor de trilhas sonoras para filmes, entre outras coisas, chegou a lançar o Manifesto Dos Erros, itemizando regras para  as  gravações soarem mais humanas. Segue abaixo a lista do manifesto.

  1. Proibido o uso de sintetizadores, presets e drum machines.
  2. Apenas sons gerados no início do processo de composição são permitodos para sampling.
  3. Sampling de outros músicos é proibido.
  4. No caso de instrumentos acústicos como o piano, por exemplo, deve-se evitar a replicação do som dos mesmos caso haja condições de usar o instrumento original.
  5. A inclusão de  “acidentes” de gravação no resultado final são altamente recomendáveis.
  6. O canal da mesa de som não pode ser “flatado” antes da gravação de um instrumeno. Isto garante que haja equalização  aleatória do que é gravado.
  7. Não serão aceitos parâmtetros de efeitos prontos de fábrica. Tudo deve ser regulado na hora .
  8. Não é permitida a edição das  trilhas  gravadas.
  9. As notaçoes das trilhas devem ser publicadas na ficha técnica.
  10.  Anotação dos recursos técnicos e equipamentos usados devem ser publicados na ficha técnica.
  11. Remixes alternativos devem utiliza somente as faixas originalmente  gravadas pelo artista.

Ao ler esta lista, me bateu o comichão de experimentar gravar uma música seguindo as regras citadas acima.Gravar assim deve ser uma experiência fantástica que deve resultar em algo imprevisivelmente belo.

“Hospital “ da trilha sonora do filme A Fantastic Woman composta por Mathew Herbert

Nossas imperfeições nos tornam humanos e fazem parte do nosso diferencial criativo. Se você quer se destacar, faça algo fora da linha de montagem pasteurizante da indústria da música. A imprevisibilidade dos erros traz o engajamento do ouvinte, faz a músca  respirar.

Publicado por Oswaldo Marques

Moro em Belo Horizonte, MG , sou um músico que curte trocar idéias e questionar sobre tudo que acontece no mundo da música.

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