Fazer música de qualidade no Brasil tornou-se algo politicamente incorreto

O Brasil vive um paradoxo estético. Vou tentar explicar. Se você faz algo sofisticado , é rotulado de elitista. Qual o problema em buscar  qualidade em tudo ? Eu não vejo problema , mas as grandes gravadoras querem que tudo seja nivelado por baixo , “transformam o país inteiro num puteiro ,pois assim se ganha mais dinheiro” diz a letra de  “O Tempo Não Para” , parceria de Cazuza com Arnaldo Brandão.

 A supremacia do “pobre cenográfico , como diz outro famoso compositor é  gritante hoje em dia.Converse com   um produtor de uma “major”. Ele vai dizer que , na época em que vivemos , sofisticação não vende. Você tem que apoiar alguma causa  social, lutar pela preservação  dos  ornitorrincos hermafroditas ou  ,se for capaz , parar de comer carne e abraçar o estilo de vida vegano  (que  está na  moda ) e  explicitar isso nas  letras de  sua música. Ah , no caso do sertanejo , a música, obrigatoriamente, tem que falar de “dor de amor”.

Fazer música que fuja dos  parâmetros da pobreza musical reinante soa como algo  politicamente incorreto, coisa feita pro povão não entender, algo feito pra  elite. Segue abaixo um diálogo fictício (muito próximo do que acontece diariamente em gravadoras  e selos) entre  um  produtor  e um artista.

Artista -Mas eu não posso  fazer  algo  fora dos  parâmetros citados ?

Produtor-Não. Se você não se  “atualizar”, não vai  vender muito.

Artista-Tá, mas vamos  supor que  eu tope abraçar uma causa e  mudar minhas  letras, não posso experimentar musicalmente usando compassos diferentes do quarternário ?

Produtor-Não. O povão não vai curtir.

Artista-Então , se eu gravar todas as músicas  em  compasso  4/4 com letras  engajadas , posso fazer uma capa  bem  bonita e bem acabada?

Produtor- Não . O público não vai achar  que  é  um produto  popular , vai  achar  que  é  algo distante de sua realidade cultural e de seu poder aquisitivo e seus CDs vão encalhar nas  lojas de departamento  e , mesmo nas plataformas de streaming, não vão escutar seu som.

Sei que vão dizer que estou  exagerando e  generalizando. Mas, na esmagadora maioria dos casos é assim  que  as  coisas  funcionam . Basta ler as recentes  estastísicas da indústria da música no Brasil.

No rádio, 91,5% — 32 das 35 canções do top 10 dos últimos seis meses — eram sertanejos; o restante eram dois arroxas e um “sambanejo”. Sobre a temática, chama a atenção que 100% dos sertanejos têm a impossibilidade amorosa como tema: da dor de cotovelo pela perda da pessoa amada a romances tóxicos/disfuncionais, passando por amantes que não terminam de se entender ou namorados que estão separados fisicamente e não podem se encontrar. Entre os funks do ranking (que aparecem só no streaming, nunca na rádio), 100% têm classificação como conteúdo explícito e trazem referências sexuais

O streaming apresentou um pouco mais de variedade, com espaço dividido entre sertanejos, funk, pop e até a presença (bastante minoritária, com apenas 6% do total, ou quatro canções.

Fonte dos dados apresentados acima http://www.ubc.org.br/Publicacoes/Noticias/14122

Aí depois de ler os  dados  acima, você me pergunta se há perspectiva de melhora .

 E eu  respondo que, infelizmente,  não há sinais de  desgaste do modelo atual. A luz no fim do túnel  é  um trem vindo em nossa  direção.

Publicado por Oswaldo Marques

Moro em Belo Horizonte, MG , sou um músico que curte trocar idéias e questionar sobre tudo que acontece no mundo da música.

7 comentários em “Fazer música de qualidade no Brasil tornou-se algo politicamente incorreto

  1. Lamentável o atual cenário musical e essa falta de perspectiva. Particularmente acredito que é o reflexo da contemporaneidade que vivemos, da fugacidade e das fragilidades das relações. Quando a via de escape da maioria das pessoas forem o álcool, traição conjugal, vingança e desapego a alienação possivelmente aumentará, comportamento de manada. Mas se aventurar em viajar..conhecer o novo…ter uma leitura profunda…reflexão, poucos querem! Aí fica difícil colocar a criatividade à prova e gerar conteúdo.

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  2. A música no Brasil perdeu a profundidade.Recentemente Milton Nascimento fez o alerta em sua fala que o país emburreceu, dando ênfase na falta da qualidade musical dos dias atuais.
    A mídia musical nega música de qualidade, pois as mesmas não tem visibilidade para o mercado. A juventude curte as letras que falam de traição, bebida.Na contramão a boa música que seria expressão cultural e protesto não agrada o mercado milionário de hits que agridem aos ouvidos sensíveis.
    Prefiro a caneta azul escrevendo no papel e não ouvir.

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  3. “Arte é a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e ideias, com o objetivo de estimular esse interesse de consciência em um ou mais espectadores, e cada obra de arte possui um significado único e diferente”,

    Uma das principais correntes de estudo da música popular produzidas no Brasil, dentre todas as outras manifestações musicais, em muito se deve à sua atuação impactante nos diversos espaços culturais e entre os diferentes segmentos sociais. Pois bem, se a definição de arte está ligada a estímulos e consciência, nada mais comum do que essa baboseira que se ouve por ai, essa pobreza musical, cultural, insignificante.

    As pessoas estão descartáveis, haja visto que o sexo vem primeiro que a conversa, se não há dialogo a priori, logo vem a sofrência rsrsr… a dor de cotovelo, o chifre…. Tudo isso transformado em “arte popular”, ou melhor em lixo musical… (desculpe mas tive que pausar para dar uma boa gargalhada), é mais fácil vender o obvio…

    A sofisticação musical, é apreciada por poucos, sua minoria elitizada culturalmente falando. Não adianta discutir com a maioria, seria como dar pérolas aos porcos…

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  4. Respeito quem goste de sertaneja, pagode, forró e o que for do gênero, mas sou do pop/rock e não curto as citadas anteriormente. Estou fazendo um curso de teclado, começando, e de cara avisei as minhas preferências. Não faço questão de aprender o que não gosto, quero tocar para mim, não para agradar outros.
    E tem músicos para todos os gostos.

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